domingo, 22 de novembro de 2009

Não quero me acostumar




Estranha sensação essa quando a felicidade alheia te incomoda. Ou mais, te ofende. Como se tudo tivesse que parar, porque você não está por aqui. Como se o mundo devesse estar triste, porque você se foi. Eu sei, não estou sabendo lidar com isso. Mas e quem sabe? Quem tem a receita pra concretizar uma ausência, pra compreender o momento em que se percebe o quão efêmera é a vida?
Eu continuo na angústia silenciosa de te esperar todos os dias. E de ter de repensar, continuamente, cada passo. Porque tudo parecia envolver você. Não parecia, era real. E o real agora, mais do que em qualquer outro momento da minha vida de brincar de fantasias, não me agrada. E, mais do que em qualquer outro momento da minha vida, ele (o real) se faz urgente. E dói.
Eu sempre disse que nós seres humanos somos capazes de nos acostumarmos com tudo. Dizia isso tomando em conta minhas experiências familiares surreais.
Eu não queria ter que me acostumar em não ter você. Eu não quero. Como faz?

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Well...


I wait for a phone call. I wait for the door to ring. I wait for your cuddle in bed at night. I still don´t believe it´s real. I wait for you every night, that´s why the pills. I get myself thinking all the time "i have to tell you that, show you this". And then the memory comes back. And it hurts, all over again.




"Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.
Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouqueceu nossas horas.
Que poderias Ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?
Tenho razão para sentir saudade de ti,
De nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre a certeza e segurança.
Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste."


Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 3 de novembro de 2009

desde que imprimi tudo que ja escrevi e levei a terapeuta, nunca mais escrevi uma linha...
ainda não ouvi comentários dela sobre algumas coisas mais... mais..., mas por alguma razão, travou.
Voltarei.

domingo, 16 de agosto de 2009

About myself - ou essa conta é do terapeuta


Do avesso, de dentro, de todos os lados. Das entranhas, do cérebro, da alma, por debaixo das unhas. Inquietação, incômodo, dor, soco no estômago. Assim, de alguma forma, de outro jeito, de forma nenhuma. Eu vou encontrar a resposta.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Nao quero rosas...




"Todos os anos, no dia 8 de março nos oferecem rosas em homenagem ao “Dia Internacional da mulher”.
Dizem que a rosa simboliza a "feminilidade", a delicadeza. É a mesma metáfora que usam para coibir nossa sexualidade -- da supervalorização da virgindade é que saiu o verbo "deflorar".
A delicadeza da flor também é sua fraqueza. Qualquer movimento brusco lhe arranca as pétalas. Por sermos o "sexo frágil" devemos ser protegidas. A julgar pelo número de estupros, precisamos de proteção contra os homens. Ah, mas os que estupram são psicopatas, dizem. Não é com estes que nós namoramos e casamos, não é a eles que confiamos nossa proteção. Mas, segundo pesquisa Ibope/Instituto Patricia Galvão, 51% dos brasileiros conhecem alguma mulher que é agredida por seu parceiro. Em 40 a 70 por cento dos assassinatos de mulheres, o autor é o marido ou companheiro. Este tipo de crime aparece na mídia como "passional" -- Tratam os criminosos como "românticos" exagerados.
A rosa também tem espinhos, o que a torna ainda mais simbólica dos mitos que o patriarcado atribuiu às mulheres. Somos ardilosas, traiçoeiras, manipuladoras. Nós é que fomos nos meter com a serpente e tiramos Adão do paraíso. Várias culturas têm a lenda da vagina dentata. Em Hollywood, as mulheres usam a "sedução" para prejudicar os homens e conseguir o que querem. Nos intervalos do canal Sony, os machos são de "respeito" e as mulheres têm "mentes perigosas". Por isso, a sociedade prendeu as mulheres dentro de casa e ainda limitou seus movimentos com espartilhos, sapatos minúsculos (na China), etc. Impediram-na que estudasse, que trabalhasse, que tivesse vida própria. Ela era propriedade do pai, depois do marido. Tinha sempre de estar sob a tutela de alguém, senão sua "mente perigosa" causaria coisas terríveis.
Mas dizem que a rosa serve para mostrar que, hoje, nos valorizam. As mulheres votam e trabalham! Não há mais nada para conquistar! Será mesmo? Nos últimos anos, as diferenças salariais entre homens e mulheres (que seguem as mesmas profissões) têm crescido no Brasil, em vez de diminuir.
Dizem que a rosa é um sinal de reconhecimento das nossas capacidades. Mas, no ranking de igualdade política do Fórum Econômico Mundial de 2008, o Brasil está em 100º lugar entre 130 países. As mulheres têm 11% dos cargos ministeriais e 9% dos assentos no Congresso -- onde, das 513 cadeiras, apenas 46 são ocupadas por elas. Do total de prefeitos eleitos no ano passado, apenas 9,08% são mulheres. E nós somos 52% da população.
A rosa também simboliza beleza. Mas é só passar em frente a uma banca de revistas para descobrir que é o contrário. Você nunca está bonita o suficiente. Não pode ser feliz enquanto não emagrecer. Não pode envelhecer nem ter celulite, nem espinhas nem estrias nem olheiras nem cicatrizes nem hematomas. Deve ser igual à modelo da capa (que usa photoshop).
No dia 8 de março, nos dão uma rosa como sinal de respeito. No entanto, a misoginia está em toda parte. Os anúncios e ensaios de moda glamourizam a violência contra a mulher. Nas propagandas de cerveja e programas humorísticos, as mulheres são meros objetos sexuais. A multibilionária indústria da pornografia mostra cada vez mais cenas de violência contra a mulher. Nos videogames, ganha pontos quem atropelar prostitutas ou estuprar uma mãe e suas filhas.
Todo dia 8 de março, vejo mulheres com rosas vermelhas na mão, no metrô. É um sinal de cavalheirismo, dizem. Mas, no mesmo metrô, muitas mulheres são encoxadas todos os dias. Tanto que o Rio criou um vagão exclusivo para as mulheres. Eles não punem os responsáveis. Preferem isolar as vítimas. Enquanto não combatermos a idéia de que as mulheres que andam sozinhas por aí são propriedade pública, isso nunca vai deixar de existir. Enquanto acharem que cantar uma mulher na rua é elogio, idem.
Não quero rosas. Eu quero igualdade de salários, mais representação política, mais respeito, menos violência e menos amarras. Eu quero, de fato, ser igual na sociedade. Eu quero, de fato, caminhar em direção a um mundo em que o feminismo não seja mais necessário".

*Texto adaptado do original de Marjorie Rodrigues

segunda-feira, 20 de julho de 2009

...

Zum Teufel!

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Do clichê. Ou - love is not a waste.



Se queres saber, dói, dói sim. Mas nem a dor é capaz de afastar a verdade do valor do sentimento. Amar não me parecerá, nunca, um desperdício. E todos os clichês, por mais odiáveis que me sejam sempre, fazem um tanto de sentido.
Não há dor ou razão capaz de desconstruir a realidade presente no perder-se em outra vida, no enxergar-se nos gestos do outro, no sentir-se parte de alguém, no aprendizado implícito, na troca intensa.
Clichês... e qual o problema?
Nessas horas não vejo nenhum. E nem sei ao certo se falar em amar é mesmo um clichê. Nessas horas essas palavras tantas vezes usadas por muitos e por tantos são apenas minhas, são o meu sentir e dizê-las clichê é esvaziá-las. Sinto. e se transformar o sentir em frase é repetir a ladainha alheia, que seja. Tenho que falar...



AMOR

Amor, então,
também, acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.

Paulo Leminski

sábado, 20 de junho de 2009

...

Eu não sei... eu não consigo.
Tudo já foi diferente, tudo já foi melhor, eu já fui melhor.
Quando, onde, em que momento:
dói em todos os lados.


Álvaro de Campos
Lisbon revisited (1926)

Nada me prende a nada.
Quero cinqüenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja -
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.
Fecharam-me todas as portas abstratas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
Não há na travessa achada o número da porta que me deram.


Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta - até essa vida...

Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.
Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me naufrago;
ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.

Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma...
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, últimos restos
Da ilusão final,
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.

Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavorosamente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...

Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar.
E aqui de novo tornei a voltar?
Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?

Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.

Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver...

Outra vez te revejo,
Sombra que passa através das sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir...

Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim não me revejo!
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim -
Um bocado de ti e de mim!...

domingo, 15 de março de 2009

Tarefa difícil lidar consigo mesmo. Sustentar-se, andar pelos quartos dos próprios sentimentos. Tarefa interminável e inevitável. Carregar pelos corredores cada uma das experiências que nos faz exatamente essa massa estranha e pesada. Compreender que somos feito de todo o pó, todos os destroços, toda lama e mesmo de toda luz, todo chão, todo ar. E que apenas a compreensão de nossa totalidade pode fazer do pó, luz.

Berna, 2 de janeiro de 1947
Querida, Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso - nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro. Nem sei como lhe explicar minha alma. Mas o que eu queria dizer é que a gente é muito preciosa, e que é somente até um certo ponto que a gente pode desistir de si própria e se dar aos outros e às circunstâncias. Depois que uma pessoa perde o respeito a si mesma e o respeito às suas próprias necessidades - depois disso fica-se um pouco um trapo.
Eu queria tanto, tanto estar junto de você e conversar e contar experiências minhas e dos outros. Você veria que há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo. Eu mesma não queria contar a você como estou agora, porque achei inútil. Pretendia apenas lhe contar o meu novo caráter, um mês antes de irmos para o Brasil, para você estar prevenida. Mas espero de tal forma que no navio ou avião que nos leva de volta eu me transforme instantaneamente na antiga que eu era, que talvez nem fosse necessário contar. Querida, quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma num boi? Assim fiquei eu... em que pese a dura comparação... Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões - cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também minha força. Espero que você nunca me veja assim resignada, porque é quase repugnante. Espero que no navio que me leve de volta, só a idéia de ver você e de retomar um pouco minha vida - que não era maravilhosa mas era uma vida - eu me transforme inteiramente.
Uma amiga, um dia, encheu-se de coragem, como ela disse e me perguntou: "Você era muito diferente, não era?". Ela disse que me achava ardente e vibrante, e que quando me encontrou agora se disse: ou esta calma excessiva é uma atitude ou então ela mudou tanto que parece quase irreconhecível. Uma outra pessoa disse que eu me movo com lassidão de mulher de cinqüenta anos. Tudo isso você não vai ver nem sentir, queira Deus. Não haveria necessidade de lhe dizer, então. Mas não pude deixar de querer lhe mostrar o que pode acontecer com uma pessoa que fez pacto com todos, e que se esqueceu de que o nó vital de uma pessoa deve ser respeitado. Ouça: respeite mesmo o que é ruim em você - respeite sobretudo o que você imagina que é ruim em você - pelo amor de Deus, não queira fazer de você mesma uma pessoa perfeita - não copie uma pessoa ideal, copie você mesma - é esse o único meio de viver.
Juro por Deus que se houvesse um céu, uma pessoa que se sacrificou por covardia - será punida e irá para um inferno qualquer. Se é que uma vida morna não será punida por essa mesma mornidão. Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo aquilo que sua vida exige. Parece uma vida amoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma. Espero em Deus que você acredite em mim. Gostaria mesmo que você me visse e assistisse minha vida sem eu saber. Isso seria uma lição para mim. Ver o que pode suceder quando se pactua com a comodidade de alma".
Carta atribuida a Clarice Lispector