sábado, 14 de janeiro de 2012

Política criminal? Política criminosa? Política criminógena?

Os acontecimentos na cracolândia de São Paulo desencadearam todo o tipo de reação possível: dos indiferentes ao temerosos, dos apoiadores aos críticos, muito se disse.
Dois textos sobre o tema foram fundamentais e muito bem escritos: o da BF Nessa Guedes, no Garota Coca Cola e o do Marcelo Semer no Blog Sem juízo.
Esse texto aqui, contudo, quer falar a partir de outro enfoque. O enfoque da espécie de política criminal que essa espécie de intervenção, ocorrência, desastre ou violência revelam.
Uma reação muito comum é dizer que se trata de um reflexo, na PM Paulista, do governo de direita naquele estado. Talvez sim, a policia paulista de paulistana seja realmente violenta. Talvez sim, a política criminal paulista seja excludente e punitiva. Mas, só ela assim o é? Só ali assim ocorre?
Nao parece ser assim. Em nossa cultura patriarcal, o estado pai, punitivo e sancionador, nao é uma figura exclusiva da direita: arrisco dizer que é parte do imaginário coletivo, ou indo mais longe, parte dos desejos coletivos.
Uma política criminal orientada pela proteção aos direitos humanos e pela alteridade pouco se viu. Ou nem se vê.
E governos de esquerda cometem os mesmos erros na condução do tema, quando nao produzem seus próprios erros em sua própria política criminal. É o que se vê no programa nacional para a segurança pública. Repete-se o caminho da esquerda punitiva, que se conduz pela "faxina" contra a corrupção, os crimes financeiros, tributários, as condutas lesivas á administração pública; na busca de punições exemplares (que, talvez, nunca ocorra), com execrações públicas e condenações a reboque das garantias processuais. Junte a isso um programa de combate às drogas (e a droga da vez a ser combatida é o crack), que convença a população, amedrontada pelas agências midiáticas, que a segurança pública é uma real preocupação do governo.
Assim se viu no Espirito Santo, em dois mandatos de um governo de um partido de esquerda. Por debaixo de uma propaganda de combate ao crime organizado e à corrupção que assolava então o estado (assolava? Aqui vários sic são necessários, mas isso é tema para outro texto), o sistema penitenciário capixaba logo se tornou assunto de boteco, denúncia internacional, vergonha própria e alheia, aquela sujeira que não mais cabia debaixo do tapete.
Uma política criminal criminosa e criminógena não é exclusividade de São Paulo. Não é exclusividade da direita.
É preciso reconhecer e assumir essa herança, a paternidade do estado pai violento e castigador.
A cracolandia destruida, devassada, agredida e violentada não é de São Paulo. A cracolandia assim cuidada é brasileira.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Eu brinco.

Entre epifanias, fantasias e angustias ... Eu brinco.
Entre realidade, pragmatismo, necessidade ... Eu brinco.
Entre refazer, desfazer, refazer-me ... Eu brinco.
Entre o novo eu, o velho eu, eu, e não sei quem ... Eu brinco.
Entre o aqui dentro, aí fora, em todo lugar... Eu brinco.
Que outra forma de viver, se o passado é hoje até que eu saiba elabora-lo?
Brinco. Porque de brincar vou assim revivendo. E de reviver, compreendo. E revivendo, o passado vira passado e me refaço.
Eu era menina e o que se fez disso mal se fez. Eu sou mulher e o que se faz disso? É preciso perguntar à menina.
Sento no divã para conversar com a menina. Ela ainda não me disse tudo.
E então, entre sintomas, projeções e angústias, eu brinco.
Que outra forma de viver?

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Talvez você não saiba

Falar.
Falar alto. 
Falar em público.
Falar por si.
Falar com o chefe.
Enfrentar o chefe.
Falar com o pai.
Enfrentar o pai.
Andar em uma rua escura.
Andar uma rua simplesmente.
Andar de metrô.
Tomar um ônibus cheio.
Escolher a profissão.
Exercer a profissão.
Ter um cargo de liderança.
Ter um filho.
Ter um filho, uma profissão e um cargo de liderança.
Ter um filho, uma profissão, um cargo de liderança e ser casada.
Não querer ter filhos.
Querer ter filhos, mas não agora.
Querer ter filhos, mas não com você.
Querer ter filhos, mas não se definir por.
Querer ter filhos, mas não desse jeito.
Querer sexo.
Fazer sexo.
Querer sexo, mas não agora.
Querer sexo, mas não com você.
Querer sexo com vários.
Querer sexo eternamente com um.
Ter vaidade.
Não ter nenhuma vaidade.
Vestir-se bem.
Não se vestir.
Ser motivo de piada.
Ser motivo.
Ser amada.
Ter cicatrizes, disseram, de amor.
Gostar de homens.
Não gostar de homens.
Gostar de homens, mulheres e sei lá de si.
Não gostar de nada.
Decidir.
Decidir livremente.
Decidirem por você.
Decidirem por você para que você seja livre, disseram.
Fazer política.
Ser política.
Ser parte das decisões políticas.
Ser parte, sujeito e objeto das decisões políticas.
Escolherem por você. 
Escolherem pelo seu corpo.
Saber a diferença entre a violência física e a psicológica.
Sentir ambas na pele.
Saber ambas.
Sofrer.
Não se permitir sofrer.
Não ser autorizada a sofrer.
Dentro de casa.
Dentro.
Doer.
Aprender a não doer.
Aprender que dói.
E se ainda conseguir, falar.
Falar alto.
Falar em público.
Falar por si.


Talvez você não saiba. Talvez você nunca compreenda. Talvez só mesmo uma mulher saiba como todas e cada uma dessas ações (e tantas outras) podem estar cercadas e embebidas da violência, da opressão e do controle a que são submetidas todos os dias.
Talvez você não saiba. Nem precise saber. Reconhecer a existência da violência de gênero, insistir no seu combate e defender sua eliminação não dependem disso.
Ninguém precisava saber. Mas enquanto nós soubermos, você só precisa ouvir e compreender que não há sentido em privar de direitos quem quer que seja, apenas por ser mulher.

25 de novembro, Dia Internacional de Combate À Violência contra a Mulher.
Blogagem Coletiva organizada pelo Blogueiras Feministas 

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Segurança Pública, direitos humanos e a opção pela repressão

A convite do CFEMEA e do INESC, estive nessa terça feira em Brasília para a audiência pública da Comissão de Segurança Pública da Câmara. Fui como uma das representantes do Blogueiras Feministas, junto com a Cynthia Semiramis e a Renata Lima.
A intenção da audiência era debater o orçamento do governo para a área e a presença de membros dos movimentos sociais tinha por finalidade discutir a inclusão do debate em direitos humanos na área da comissão e no orçamento a ela destinado.

A reunião começou já com um obstáculo: a ausência de um representante do governo na audiência (ausência esperada mas nem por isso menos lamentada). Estavam na mesa Silvia Ramos, do CESEC, Alexandre Ciconello do INESC e Guacira de Oliveira do CFEMEA. Segundo comentários e críticas feitos por estes, há uma característica de redução do diálogo no novo governo com os representantes da sociedade civil, aliada a uma forte centralização pela Presidenta. Para eles, essas notas são responsáveis por dificultar o trabalho e controle da sociedade civil das políticas públicas, além de representar um retrocesso do nível de diálogo firmado pelo governo anterior.

Alguns dias antes da audiência tive acesso a documentos produzidos por esses institutos, que já davam o tom do encontro. A avaliação apresentada pelo INESC, o retrato da discriminação racial e de gênero em um cenário assustador, mostrava como o número de homicídios no país tem alvo certo: jovens pobres e negros. O quadro, no entanto, é ainda pior do que o aqui antecipado.

A fala foi iniciada por Silvia Ramos do CESEC, que destacou o elevado número de homicídios por ano no Brasil. Em números absolutos, disse Silvia, o Brasil é campeão mundial de assassinatos e o sexto quando considerada a taxa de homicídios por habitantes, posição que ocupa há mais de uma década. Mais alarmante ainda, destacou, é perceber que a taxa de homicídios entre jovens de 15 a 24 anos, homens e negros é de quase 300 por cem mil habitantes.(número que é ainda mais alto em capitais como o RJ. Aliás, aqui uma ressalva. Cidades como RJ e SP tem alardeado e comemorado reduções nos índices de homicídios. Essa diminuição é obviamente questionável, considerando, em primeiro lugar, o histórico de subnotifições dessas ocorrências, o sistema penal subterrâneo e, por fim, o fato de que as políticas repressoras e higienistas adotadas nessas cidades apenas transferem de lugar as ocorrências)

O destaque, no entanto, da fala de Silvia, não foi esse. Insistiu, como deve ser, em chamar atenção para a diferença nos gráficos entre o número de homicídios de jovens negros e brancos. Diferença que é significativa e que releva a característica racista da violência no país. Falar em genocídio de jovens negros não é novidade entre movimentos sociais. A coleta de dados que demonstram essa diferença por institutos da sociedade civil também não é novidade. Novidade, ainda não vista de modo satisfatório, é ver o reconhecimento do recorte de raça nas políticas públicas de segurança. (e mesmo para os homicídios no trânsito o maior número de vitimas está entre homens, jovens, pobres e negros).

Incomoda ver Silvia contar que, em congresso internacional na África do Sul, ao relatar esses índices e seu recorte racial, foi questionada por representantes de outros países: mas vocês não fazem nada?

Após a fala de Silvia, foi a vez de ouvir Guacira Oliveira. A diretora do CFEMEA relatou a preocupação do movimento de mulheres no plano orçamentário e no tema da segurança pública. Segundo ela, o governo não cumpriu as metas de ações de planos de enfrentamento à violência contra as mulheres. Do mesmo modo que relatado por Silvia, Guacira aponta que os homicídios de mulheres também tem aumentado e também tem um claro recorte de raça, sendo, portanto, o número de homicídios de mulheres negras consideravelmente maior.

No site do CFEMEA é possível acompanhar os dados aqui apresentados e verificar como a dotação inicial do PPA para projetos de inclusão de questões relativas a direitos humanos na seguranca pública não foi efetivamente aplicada e liquidada. Além disso, ao demonstrar os números dos investimentos futuros na área, algumas tristes conclusões podem ser inferidas.
A primeira é a preocupação de que esses números reflitam uma paulatina extinção do PRONASCI. A isso se soma a avaliação de um esvaziamento ou de uma possível e já noticiada extinção das Secretarias - SNPPM e  SEPIR.
A realidade futura dos investimentos, conforme apresentado pela diretora do CFEMEA, é de pouco ou nenhum recurso destinado ao enfrentamento da violência racial e de gênero (Destaca, também, que nenhum recurso é destinado ao enfrentamento da violência fruto da discriminação por orientação sexual). Sem contar, ainda, que os projetos apresentados até o momento não se caracterizam como verdadeira forma de tratar essas espécies de violência: o exemplo talvez mais repetido e criticado naquela tarde foi o Mulheres da Paz, que com a exceção do nome, em nada significa proteção à mulher ou combate à violência de que é vítima e que não a coloca como alvo de proteção, mas como instrumento de solução de conflitos e combate à violência em sentido amplo, como se "salvadoras" fossem, nas palavras de Alexandre Ciconello.
Por tudo isso, as reivindicações do grupo se concentravam na necessidade de recursos para enfrentar a violência contra as mulheres e o racismo institucional.
A fala final da mesa foi do representante do INESC, Alexandre Ciconello. Segundo sua avaliação, o PRONASCI é uma legislação avançada. Uma grande crítica por ele feita, contudo, é que, até hoje, não há uma avaliação oficial (ou se há, nunca foi publicada) da aplicação das ações do PRONASCI. 
Apontou que, ainda que o programa tenha representado esse avanço, as políticas ali presentes com ênfase nos temas raça e gênero não foram implementadas e a maior parte dos recursos é destinada ao Bolsa Formação que apenas no papel tem a diretriz de formação da força policial em direitos humanos e tem se destinado a constituir um aumento da remuneração dos agentes. (o que, obviamente, é necessário, mas o destaque é para o desvirtuamento das finalidades da referida política).
Algo fundamental foi dito por Alexandre: a política de segurança pública do atual governo está centrada no combate ao crack e outras drogas, ao crime organizado e à corrupção. 
Como disse Alexandre, é perigosa essa espécie de política de combate ao crack e outras drogas e sua associação com grupos religiosos e a política de internação compulsória, indo no caminho contrário a luta antimanicomial,  quando não uma política associada a uma pegada higienista de limpeza de cidades para grandes eventos.
Não há nenhuma novidade: é a repetição da política criminal repressiva já historicamente utilizada no país. E, nesse ponto, nossa experiência mostra que, em qualquer das esferas da federação e qualquer que seja a vinculação partidária no governo, as políticas de segurança pública tem sido, em sua maioria, políticas de repressão, quer seja um governo de direita ou esquerda. E não é preciso nem entrar na discussão da ineficácia dessa espécie de política do ponto de vista da criminologia, apenas ressaltar que elas tem por efeito (e as vezes até por finalidade) criminalizar e excluir alguns grupos étnicos, raciais e sociais.
Talvez seja mesmo verdade que a criação do PRONASCI no governo Lula tenha sido em si um avanço, por qualificar a preocupação com a segurança pública como política pública. E mais, por ter imprimido ao assunto o enfoque dos direitos humanos. Acontece, no entanto, que a realidade demonstrou que muitos dos projetos e ações advindos do referido programa não receberam recursos ou sequer foram implementados. Não fosse isso cenário já alarmante, com o novo governo o PRONASCI perde espaço e, com uma política de segurança pública focada na repressão, tratar de direitos humanos em segurança se tornou assunto menor ou mesmo assunto sequer abrangido. Por isso a mobilização dos movimentos sociais na audiência de ontem: não permitir que o pouco que avançamos se perca, mas, pelo contrário, tentar efetivar e implementar aquele pouco que havíamos avançado. 
A crítica aqui feita está, então, justamente nessa repetição (e reforço) do modelo repressivo da política criminal. O que para aqueles esperançosos eleitores de 2010 parecia um sonho de uma nova forma de se dizer e fazer segurança pública e respeito aos direitos humanos, parece agora decepção e retrocesso.
E, nesse caminho, a violência racial continua a aumentar, jovens negros são mortos em proporção de 2 em cada 3 homicídios, o racismo institucional continua presente e a violência contra a mulher  continua crescendo  sem a criação e aplicação de programas eficazes.

Por fim, importante dizer que, conforme informação da Priscilla Brito, depois da audiência CFEMEA e INESC elaboraram uma emenda para a PLOA 2012, com pedido de mais recursos para o PRONASCI e inclusão  no orçamento de ações de combate ao racismo institucional. Contudo, após apresentada, a emenda foi rejeitada pela Comissão de Segurança Pública, considerando mais importante e necessária a compra de um avião para combater o tráfico de drogas.
Mais um motivo para dizer que a opção brasileira pela repressão não é nenhuma novidade e mudar esse hábito precisa de muita vontade política (que, com sinceridade e desesperança, não sei dizer de onde virá).

Para outras informações sobre o tema, leia:


Orçamento da segurança diminui 12,9% para 2012 - http://www.inesc.org.br/noticias/noticias-do-inesc/2011/novembro-1/orcamento-da-seguranca-diminui-12-9-para-2012
Cidadania, Direitos Humanos e Segurança Pública no PPA 2012-2015 - http://www.cfemea.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=3651&catid=210&Itemid=145
Racismo e violência letal http://www.observatoriodefavelas.org.br/observatoriodefavelas/noticias/mostraNoticia.php?id_content=1140
Direitos Humanos – afinal, para quem? - http://blogueirasfeministas.com/2011/11/direitos-humanos-afinal-para-quem/

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Vem ni mim Melancolia e a campanha polêmica


A Benetton lançou uma campanha nova. Polêmica, claro. Mas a pergunta que se deve fazer é: o que está na campanha? Por que ela é polêmica? Qual o debate que ela quer lançar?

A campanha fala em Unhate, não odiar. Quem? O que? 

Depois de algum debate no facebook com alguns amigos, passei a questionar tudo isso. Sim, porque me pareceu que a leitura que cada um que se depara com a campanha faz diz mais do que a própria campanha. Nas imagens, diversos líderes mundiais (políticos, religiosos, sociais) se beijando.
E se queriam falar de política e se queriam falar de tolerância, tudo se resumiu a: dois homens se beijando. E, não sou ingenua, acho que a intenção era realmente essa - o beijo que choca - e a mensagem - ampla - de tolerância. E, também não sou ingênua, é uma campanha publicitária.
E então que, sendo uma marca,  não há dúvidas, realmente ela usa a ideia para vender. Considerando, no entanto, que, ao mesmo tempo a ideia que choca afasta consumidores, a campanha tem mais de publicidade ou mais de causa/provocação? 
Não sou lá a maior fã (nem a menor) de publicidade, mas será que toda vez que uma ideia/causa for usada pela publicidade, ela deve ser rejeitada? Especialmente se considerarmos ser uma marca que tradicionalmente já se utilizou desse tipo de ideia? 

O Mozine, amigo querido desse blog aqui, me fez pensar muito no tom da campanha. E a Diana também, que não tem blog, mas também é amiga querida e acompanha o meu BBB da vida real e sempre tem boas pontuações. Concordo que as montagens foram perigosas e violam o direito de imagem (não sei bem como foram feitas, mas parece mesmo haver uma violação). E isso talvez seja motivo para tirá-las do ar. Tirando esse ponto, contudo, o que fica é ofensivo? 

E aí que volto ao observador/receptor da imagem e sua reação. Não seria a reação do receptor a revelação do seu próprio preconceito? Se ele faz a leitura de que dois homens que se beijam é um ato ofensivo, então algo há de errado nesse pensar, não é mesmo?! E me parece que campanhas polêmicas - e essa especialmente - jogam justamente com isso, com a lente do receptor e sua reação preconceituosa.

Concordo quando o Mozine diz que uma campanha como essa pode legitimar o discurso reacionário de comediantes (sic) e defensores da (sic) liberdade de expressão - que parecem só defendê-la quando necessária para a veiculação de seus preconceitos. Eu vejo esse perigo...

BUT... eu estou pelo barulho. Precisamos de barulho. E nem estou dizendo que precisamos de barulho pela homofobia/lesbofobia escancarada, violenta, intelectualmente desonesta e (------- coloque o adjetivo que preferir) que andam tomando conta desse país, cujo combate necessita de TODO barulho possível. Mas se dermos um passo ao antes e percebermos que um beijo entre dois homens é considerado, na nossa sociedade, um ato ofensivo, então a luta é maior e precisa de MAIS barulho. Se o tabu é assim tão enorme e o preconceito idem, então só uma campanha escandalosa - no sentido genérico e no sentido específico o "campanha" - pode fazer contraponto.

O que quero dizer, então

Barulho, bebê, barulho.



"De qualquer forma", diz a Diana, "muita gente pensou no assunto (tolerância) hoje. E essa é uma vitória".



É que barulho acorda, né.

domingo, 13 de novembro de 2011

A plenitude que antecede o fim

(prometi para mim mesma que não ia mais escrever sobre isso, mas devo essa história e esse post a mim mesma, então...)



10 de novembro de 2009. Voces devem se lembrar. Para todos o dia do apagão no Brasil. Para mim, o inicio do fim. Pouco menos de dois meses antes, havia sido assaltada na porta de casa. Em razão disso, o combinado era te ligar sempre que saísse do trabalho, para que voce pudesse acompanhar e me vigiar chegando (ainda que o efeito pudesse ser apenas psicológico). Liguei
e voce nao atendeu. Uma escuridão completa que, do alto da ladeira de onde estava, já era possivel medir: toda a cidade estava no escuro. Enquanto o celular chamava, o primeiro medo me veio a mente: teria acontecido alguma coisa a voce? De moto, indo para a minha casa, na chuva e no escuro, estaria tudo bem? Voce nao atendeu. Liguei de novo. E, como estávamos
brigados, logo substitui a preocupação pela raiva e pensei: nem se importa comigo, nao me atende. Hoje, sempre que lembro disso, penso: esse pensamento bobo e infantil é tao mais simples e melhor que a realidade. Mas ora, quem sou eu para escolher.
Cheguei em casa. Bem. Voce estava bem. Brigamos, claro, porque esse vinha sendo parte do nosso caminho para tentar um caminho. E o meu medo. O meu medo. Eu te disse uma vez: nao se preocupe, podemos brigar o que for, voce nunca me fará sofrer como o fez meu pai. Sou ingênua, nao!? Eu rio da ironia dessa minha frase hoje.
Continuamos assim. Meio brigados, meio preocupados.
Sexta feira, 13 de novembro. Recebi sua mensagem pela internet (ou pelo celular, nao me lembro bem) que dizia que precisavamos conversar. Eu recorri a minha arma comum nessas horas em que o medo de ser abandonada falava mais forte (eu me tornei boa nisso, considerando a história familiar) e pensei: vai terminar comigo. Era melhor pensar o pior. E de novo, eu rio da ironia e da ingenuidade desse pensamento.
Combinamos um almoço. Voce chegou na porta de casa. Entrei no carro e vi voce, bem arrumado, bem vestido, cheiroso, com um vaso de flores na mão (voce sabia que eu assim as preferia - afinal, os buquês morriam rápido - e fez questao de dizer isso), um sorriso puro e todo o carinho que eu jamais poderei medir. Enquanto dirigia para "um restaurante especial" e eu dizia que nao tínhamos dinheiro para isso e voce insistia na necessidade e na especialidade da ocasião, enquanto gentilmente acariciava minha perna, eu olhava sua mão e tinha vontade de chorar. Naquela hora, toda a semana confusa passava pela minha cabeca e eu, que mal aprendi a ser amada, senti que, mesmo com todo conflito, com todas as brigas, com todas as dificuldades, voce sentia mesmo isso por mim: isso que dizem se chamar amor, mas podem chamar de qualquer nome e nunca se saberá do que se trata ate que se sinta.
Eu quis chorar e sair correndo, eu tinha medo ate disso.
E fomos no restaurante especial. E eu nunca te vi assim (podem dizer que essa é a leitura que fiz depois da tragédia que se seguiu. Eu bem sei que assim nao foi. Eu bem sei porque eu tive a sorte de perceber a singularidade daquele momento. E agradecer, e dizer o incrível da hora, o conforto do dialogo, a gratidão por estarmos entao finalmente compreendendo um ao outro. Eu lembro de ter dito algo como: eu sempre quis que voce entendesse exatamente isso de tudo o que tenho dito, logo após você ter explicado como via meu comportamento, minhas reclamações e nosso relacionamento. Quantas vezes essa chance surge em uma vida? Eu vi o quão maravilhoso era o momento. E eu disse. E eu agradeci. E eu agradeci. E dialoguei. E ate hoje é um conforto e uma alegria comparável a poucas).
Voltamos para casa. E eu ouvi você dizer o quanto você me amava e o quanto você queria me amar naquele dia, tudo em um único momento. E eu nem me importo com a exposição que isso possa significar, só vejo a graça de ter podido viver um momento como esse. Essa sorte de plenitude dividida corpo a corpo, na entrega mutua aos braços alheios.
A noite chegou e eu tinha um compromisso de trabalho. Debate dos candidatos a presidência da OAB. Eu participava da chapa. Motivo de criticas e ciuminhos bobos em outros dias. Nessa sexta, você me levou ao debate e na volta, ao me buscar, ouviu todos os meus comentários - revoltada que estava com o péssimo nível e a péssima condução do debate por alguns dos candidatos. E, como dito, ao contrário de outras vezes, eu ouvi você argumentar, discutir e concordar comigo, longe de implicâncias e ciúmes. Cumplicidade e compreensão no caminho para casa.
Porta de casa. Eu insisti e você confirmou os planos já antecipados. Iria dormir em casa, para no dia seguinte andar de moto com os amigos. Uma despedida boa, como casal recém feito. E a plenitude do sentir, no abraço, no beijo, na despedida, em qualquer gesto ordinário e comum.
E o fim.
Eu talvez já tenha feito esse luto. É verdade.
Alguns pedaços dessa história, no entanto, ainda estão por aqui. Por contar. Por lembrar.
Eu te devo essas historias.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

BF!

Hoje tem post meu no Blogueiras Feministas.
É sempre um orgulho e um prazer para mim escrever lá. Já pensei v´srias vezes em abandonar a lista e o blog, em razão do montante de coisas acumuladas por ter uma vida acadêmica.
A verdade, no entanto, é que não posso e não consigo. Não só pela causa e pela luta feminista, mas também por acreditar e valorizar imensamente esse projeto tão bem concebido e executado pela Cynthia Semiramis e a Bianca Cardoso, mulheres que admiro e respeito.
E, agora, tenho outros motivos. Já admirava e gostava dessas e de tantas outras pessoas que sào parte desse coletivo desde o inicio. Mas, ora vejam, fizemos aniversario e eu tive a chanca de conhecer varias delas e, devo dizer, minha paixão só aumentou. Por todas e por cada uma.
Entao, é obvio, continuo feminista e continuo blogueira feminista.
Quatica, crossdresser, a cara do movimento






segunda-feira, 31 de outubro de 2011

#DrummondDay

Drummond é poesia, é Minas Gerais, é sabedoria de forma sublime, amor em palavra, timidez itabirana, é saber a dor, conhecer o sofrer e transformá-lo em arte. 
É sair de Minas e saber que Minas nunca sai de dentro, porque "Itabira é apenas uma fotografia na parede, mas como dói!"...
É o canto mineiro da força, que suporta o sentimento do mundo e o mundo.

Mas eu gosto mesmo é de dizer 

"Se procurar bem, você acaba encontrando
Não a explicação (duvidosa) da vida,
Mas a poesia (inexplicável) da vida."

Foto: acervo pessoal

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Contra eles, censura. A favor, liberdade de expressão

Os grandes veículos da grande mídia possuem uma lógica já conhecida. Toda vez que extrapolam em seu ofício e ofendem liberdades individuais de cidadãos ou produzem matérias com conteúdo não apurado (um eufemismo para mentiroso) e deles é exigida uma postura ética, logo gritam CENSURA!
Esquecem que o direito à livre expressão, como todo direito, não é e nem pode ser absoluto e sofre restrições éticas e jurídicas.
Quando, do outro lado, os pequenos veículos (que de veículos não tem nada, são indivíduos que, sozinhos, tentam falar mais alto) das mídias virtuais tentam apontar a ausência de ética e compromisso da grande mídia, esta não hesita ou pestaneja em acionar sua força econômica E política para CENSURAR a crítica.
Esquecem, convenientemente, que a crítica é parte fundamental do exercício da democracia e se distancia bastante de práticas ofensivas e mentirosas.
E assim o jogo das forças políticas que, nesse ponto, parecem pertencer apenas a um lado, faz perdedores todos os cidadãos.

Amanhã é o dia da Audiência Pública do caso Falha.

No Blogueiras Feministas, alguns dados http://blogueirasfeministas.com/2011/10/o-caso-folha-vs-falha/
E, no próprio site, a explicação http://desculpeanossafalha.com.br/

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Um desabafo. Ou uma oportunidade para citar

Um pequeno desabafo que decidi trazer para cá em forma de post.
A discussão girava em torno do famoso email que circula por ai a respeito do auxílio reclusão. E decidi comentar algumas coisas sobre, que agora estão aqui. Também dizem respeito a tantas outras "questões" que se tornam "questões" para quem pensa em pensar (!) o sistema penal e toda essa veia punitivista, vingativa e mesmo hipócrita a envolver cada dia mais o tema, vide marcha contra a corrupção e suas reivindicações vazias, quando não absurdas (como a proclamada solução de tornar hediondo o crime de corrupção. Solução? Solução para quem?)
E então que esse tal email sobre o auxílio reclusão, saibamos ou não como se aplica ou como funciona, revela muito de nossa visão de mundo. Aquela mesma visão velha e mofada de bem e mal. Aquela velha visão responsável por jogar na cadeia, em ambientes fétidos, mal cuidados, sem condição NENHUMA de vida e saúde  (e é nenhuma mesmo, sugiro para quem se interessa, acompanhar o Facebook do Juiz Sidnei Bruzca, que faz um trabalho INCRÍVEL sobre isso) os que consideramos inferiores, aqueles com os quais não conseguimos lidar, aqueles com os quais não QUEREMOS lidar.
É a famosa destinação do Direito Penal (que em certa medida já se tornou assunto velho) ao PPP: pretos, pobres e prostitutas.
Nossa herança escravagista, paternalista, machista e elitista transformou os presídios em depósito de gente excluída. ESSA a nossa política pública, ESSA a nossa política criminal.
São muitos os criminólogos responsáveis por revelar essa veia doentia do sistema penal, de Alessandro Baratta a Nilo Batista, Lola Anyar, Rosa del Olmo, Salo de Carvalho, Zaffaroni, etc, etc, etc.
Algumas questões levantadas por esse último são bastante pertinentes, concordemos ou não com a totalidade da sua teoria. Ele destaca como TODO sistema penal é seletivo e como os sistemas penais latino-americanos possuem uma seletividade ainda mais nefasta.
E a ideia da seletividade reconhecida na criminologia, antes de qualquer coisa, nos lembra que: TODOS praticamos crimes, em um nível ou outro. Mas APENAS alguns indivíduos são criminalizados, porque os olhos do sistema o veem de forma diferente dos demais. Até mesmo algumas condutas próprias de determinados grupos são consideradas criminosas APENAS por serem desses grupos (vejam crimes como a apologia, sempre ligados a determinadas manifestações culturais).
Pensar que bandido é bandido porque quer, pobre é pobre porque quer é de uma cegueira social enorme.
O Brasil foi um dos países que sustentou, em sua teoria, por muito tempo (mesmo depois de ter sido rejeitada em outros) as teorias de Lombroso do criminoso que nasce criminoso. E AINDA HOJE há gente que pensa assim.
No fundo, não me interessa o que fez o sujeito para dizer se ele merece ou não o auxílio-reclusão. Me interessa que ele tem esse DIREITO, como contribuinte que foi. Me interessa, muito mais, que NÓS os colocamos, dia a dia, naquela situação, com a reprodução do preconceito, da discriminação de raça, de classe, de gênero... Bandido não é bonzinho. Mas, olha, NINGUÉM É. Não enquanto continuarmos a reproduzir pensamentos conservadores e excludentes como esses. Pensamento daquele que diz "eu sou do bem, já ele, olha, ele..."
Estudar o direito penal (em especial a execução penal), acreditem, faz acreditar menos nele. E eu nem sei mais onde me encontro nisso tudo. Não porque ele é "direito pra bandido". Mas por saber que essa coisa de ressocialização, prevenção é, muitas vezes, só conversa para a manutenção dessa lógica excludente NEFASTA.
No dia em que esse Direito (o sistema) Penal for PARA TODOS, aí sim, podemos conversar sobre ele.
É só um desabafo. Mas pode ser alguma coisa.



E aí que, ao escrever isso, lembrei de uma passagem fantástica do último livro do Amilton Bueno de Carvalho (pai do Salo, citado acima).
No seu livro recente ele conta a seguinte história:
"Há alguns anos, um grupo de jovens incendiou um índio em Brasília. Um deles filho de um juiz. Posteriormente, o juiz-pai foi entrevistado nas páginas amarelas da revista Veja. A dor deste pai-juiz demonstrava ser indizível. Na entrevista, ele dizia que o filho-presidiário pedia que não fosse visitá-lo para que não visse onde ele se encontrava. O pai-juiz referiu que, agora, então, entendia os juízes ativistas.
Sofri com o pai-juiz (e o respeito, com toda a dimensão humanista que me anima), mas lamentei: que pena, teve que acontecer com ele mesmo para que percebesse a importância de ser juiz ativista!
Penso que aqui há um caminho a ser seguido: o juiz deve ter empatia com o acusado. (...) Aí, presumo, está a raiz da solidariedade: conseguir se colocar no local (na dor) do outro. Empatia que difere de simpatia: estar ao lado do outro, algo menor, menos intenso, portanto!
O que quero dizer? Ter a possibilidade de estabelecer uma relação empática com o outro, aquele que sofre a perseguição penal, sem ser preciso que "eu" ou os "meus" a tenham sofrido.(...)
A busca de decisões  humanas e não meramente vingativas. O se julgar também no outro, mas não com raiva do outro e nem com raiva de mim no outro.
Evidente que é impossível se colocar totalmente no lugar do outro, mas indispensãvel alguma empatia para poder melhor (ou seja, o mais possível) entender (e julgar) este outro: "encontro" com o reconhecimento da alteridade".
Mais aqui.
Eu queria mesmo era citar essa passagem incrível.