(prometi para mim mesma que não ia mais escrever sobre isso, mas devo essa história e esse post a mim mesma, então...)
10 de novembro de 2009. Voces devem se lembrar. Para todos o dia do apagão no Brasil. Para mim, o inicio do fim. Pouco menos de dois meses antes, havia sido assaltada na porta de casa. Em razão disso, o combinado era te ligar sempre que saísse do trabalho, para que voce pudesse acompanhar e me vigiar chegando (ainda que o efeito pudesse ser apenas psicológico). Liguei
e voce nao atendeu. Uma escuridão completa que, do alto da ladeira de onde estava, já era possivel medir: toda a cidade estava no escuro. Enquanto o celular chamava, o primeiro medo me veio a mente: teria acontecido alguma coisa a voce? De moto, indo para a minha casa, na chuva e no escuro, estaria tudo bem? Voce nao atendeu. Liguei de novo. E, como estávamos
brigados, logo substitui a preocupação pela raiva e pensei: nem se importa comigo, nao me atende. Hoje, sempre que lembro disso, penso: esse pensamento bobo e infantil é tao mais simples e melhor que a realidade. Mas ora, quem sou eu para escolher.
Cheguei em casa. Bem. Voce estava bem. Brigamos, claro, porque esse vinha sendo parte do nosso caminho para tentar um caminho. E o meu medo. O meu medo. Eu te disse uma vez: nao se preocupe, podemos brigar o que for, voce nunca me fará sofrer como o fez meu pai. Sou ingênua, nao!? Eu rio da ironia dessa minha frase hoje.
Continuamos assim. Meio brigados, meio preocupados.
Sexta feira, 13 de novembro. Recebi sua mensagem pela internet (ou pelo celular, nao me lembro bem) que dizia que precisavamos conversar. Eu recorri a minha arma comum nessas horas em que o medo de ser abandonada falava mais forte (eu me tornei boa nisso, considerando a história familiar) e pensei: vai terminar comigo. Era melhor pensar o pior. E de novo, eu rio da ironia e da ingenuidade desse pensamento.
Combinamos um almoço. Voce chegou na porta de casa. Entrei no carro e vi voce, bem arrumado, bem vestido, cheiroso, com um vaso de flores na mão (voce sabia que eu assim as preferia - afinal, os buquês morriam rápido - e fez questao de dizer isso), um sorriso puro e todo o carinho que eu jamais poderei medir. Enquanto dirigia para "um restaurante especial" e eu dizia que nao tínhamos dinheiro para isso e voce insistia na necessidade e na especialidade da ocasião, enquanto gentilmente acariciava minha perna, eu olhava sua mão e tinha vontade de chorar. Naquela hora, toda a semana confusa passava pela minha cabeca e eu, que mal aprendi a ser amada, senti que, mesmo com todo conflito, com todas as brigas, com todas as dificuldades, voce sentia mesmo isso por mim: isso que dizem se chamar amor, mas podem chamar de qualquer nome e nunca se saberá do que se trata ate que se sinta.
Eu quis chorar e sair correndo, eu tinha medo ate disso.
E fomos no restaurante especial. E eu nunca te vi assim (podem dizer que essa é a leitura que fiz depois da tragédia que se seguiu. Eu bem sei que assim nao foi. Eu bem sei porque eu tive a sorte de perceber a singularidade daquele momento. E agradecer, e dizer o incrível da hora, o conforto do dialogo, a gratidão por estarmos entao finalmente compreendendo um ao outro. Eu lembro de ter dito algo como: eu sempre quis que voce entendesse exatamente isso de tudo o que tenho dito, logo após você ter explicado como via meu comportamento, minhas reclamações e nosso relacionamento. Quantas vezes essa chance surge em uma vida? Eu vi o quão maravilhoso era o momento. E eu disse. E eu agradeci. E eu agradeci. E dialoguei. E ate hoje é um conforto e uma alegria comparável a poucas).
Voltamos para casa. E eu ouvi você dizer o quanto você me amava e o quanto você queria me amar naquele dia, tudo em um único momento. E eu nem me importo com a exposição que isso possa significar, só vejo a graça de ter podido viver um momento como esse. Essa sorte de plenitude dividida corpo a corpo, na entrega mutua aos braços alheios.
A noite chegou e eu tinha um compromisso de trabalho. Debate dos candidatos a presidência da OAB. Eu participava da chapa. Motivo de criticas e ciuminhos bobos em outros dias. Nessa sexta, você me levou ao debate e na volta, ao me buscar, ouviu todos os meus comentários - revoltada que estava com o péssimo nível e a péssima condução do debate por alguns dos candidatos. E, como dito, ao contrário de outras vezes, eu ouvi você argumentar, discutir e concordar comigo, longe de implicâncias e ciúmes. Cumplicidade e compreensão no caminho para casa.
Porta de casa. Eu insisti e você confirmou os planos já antecipados. Iria dormir em casa, para no dia seguinte andar de moto com os amigos. Uma despedida boa, como casal recém feito. E a plenitude do sentir, no abraço, no beijo, na despedida, em qualquer gesto ordinário e comum.
E o fim.
Eu talvez já tenha feito esse luto. É verdade.
Alguns pedaços dessa história, no entanto, ainda estão por aqui. Por contar. Por lembrar.
Eu te devo essas historias.
2 comentários:
Só posso dizer que esse seu post previsivelmente me fez em lágrimas. Você já fez mesmo esse luto. Mas o que fica não é mais luto, mas as histórias e o amor que compõem o ser e que sempre ficarão, não importa a passagem do tempo. E esse amor e essas lembranças - que também são você, ficam. E essas reminiscências que também são vida e se transformam em caminhos e em novos encontros e novos seres - que também são e serão você. E eu e você - e nós, tão sedentas de encontros pela vida, nunca estaremos ou seremos imunes ao fato de sermos feitas de tantas despedidas.
Beijos, amore
Oi, tudo bem?
Acompanho o que você escreve e me interesso principalmente porque você assim como eu é estudante de direito, certo?uahsuah E ver gente pensando de forma plural e se expondo como o que você escreve aqui no seu blog e no Blogueiras Feministas...
Tô deixando meu contato e aperecerei mais por aqui. Beijim
=)
ps: Não achei um link onde possa te seguir no blog!
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