sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Talvez você não saiba

Falar.
Falar alto. 
Falar em público.
Falar por si.
Falar com o chefe.
Enfrentar o chefe.
Falar com o pai.
Enfrentar o pai.
Andar em uma rua escura.
Andar uma rua simplesmente.
Andar de metrô.
Tomar um ônibus cheio.
Escolher a profissão.
Exercer a profissão.
Ter um cargo de liderança.
Ter um filho.
Ter um filho, uma profissão e um cargo de liderança.
Ter um filho, uma profissão, um cargo de liderança e ser casada.
Não querer ter filhos.
Querer ter filhos, mas não agora.
Querer ter filhos, mas não com você.
Querer ter filhos, mas não se definir por.
Querer ter filhos, mas não desse jeito.
Querer sexo.
Fazer sexo.
Querer sexo, mas não agora.
Querer sexo, mas não com você.
Querer sexo com vários.
Querer sexo eternamente com um.
Ter vaidade.
Não ter nenhuma vaidade.
Vestir-se bem.
Não se vestir.
Ser motivo de piada.
Ser motivo.
Ser amada.
Ter cicatrizes, disseram, de amor.
Gostar de homens.
Não gostar de homens.
Gostar de homens, mulheres e sei lá de si.
Não gostar de nada.
Decidir.
Decidir livremente.
Decidirem por você.
Decidirem por você para que você seja livre, disseram.
Fazer política.
Ser política.
Ser parte das decisões políticas.
Ser parte, sujeito e objeto das decisões políticas.
Escolherem por você. 
Escolherem pelo seu corpo.
Saber a diferença entre a violência física e a psicológica.
Sentir ambas na pele.
Saber ambas.
Sofrer.
Não se permitir sofrer.
Não ser autorizada a sofrer.
Dentro de casa.
Dentro.
Doer.
Aprender a não doer.
Aprender que dói.
E se ainda conseguir, falar.
Falar alto.
Falar em público.
Falar por si.


Talvez você não saiba. Talvez você nunca compreenda. Talvez só mesmo uma mulher saiba como todas e cada uma dessas ações (e tantas outras) podem estar cercadas e embebidas da violência, da opressão e do controle a que são submetidas todos os dias.
Talvez você não saiba. Nem precise saber. Reconhecer a existência da violência de gênero, insistir no seu combate e defender sua eliminação não dependem disso.
Ninguém precisava saber. Mas enquanto nós soubermos, você só precisa ouvir e compreender que não há sentido em privar de direitos quem quer que seja, apenas por ser mulher.

25 de novembro, Dia Internacional de Combate À Violência contra a Mulher.
Blogagem Coletiva organizada pelo Blogueiras Feministas 

4 comentários:

Kelle Fernandes & Fabiana Santos disse...

Muito lindo o poema! Perfeito!

Wonderwoman disse...

A intenção nem era ser um poema, mas acho que o formato favoreceu.
Obrigada!

Michelle Lima disse...

Belíssimo !! Parabéns.

Pá Mariano disse...

Belíssimo!