quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Vem ni mim Melancolia e a campanha polêmica


A Benetton lançou uma campanha nova. Polêmica, claro. Mas a pergunta que se deve fazer é: o que está na campanha? Por que ela é polêmica? Qual o debate que ela quer lançar?

A campanha fala em Unhate, não odiar. Quem? O que? 

Depois de algum debate no facebook com alguns amigos, passei a questionar tudo isso. Sim, porque me pareceu que a leitura que cada um que se depara com a campanha faz diz mais do que a própria campanha. Nas imagens, diversos líderes mundiais (políticos, religiosos, sociais) se beijando.
E se queriam falar de política e se queriam falar de tolerância, tudo se resumiu a: dois homens se beijando. E, não sou ingenua, acho que a intenção era realmente essa - o beijo que choca - e a mensagem - ampla - de tolerância. E, também não sou ingênua, é uma campanha publicitária.
E então que, sendo uma marca,  não há dúvidas, realmente ela usa a ideia para vender. Considerando, no entanto, que, ao mesmo tempo a ideia que choca afasta consumidores, a campanha tem mais de publicidade ou mais de causa/provocação? 
Não sou lá a maior fã (nem a menor) de publicidade, mas será que toda vez que uma ideia/causa for usada pela publicidade, ela deve ser rejeitada? Especialmente se considerarmos ser uma marca que tradicionalmente já se utilizou desse tipo de ideia? 

O Mozine, amigo querido desse blog aqui, me fez pensar muito no tom da campanha. E a Diana também, que não tem blog, mas também é amiga querida e acompanha o meu BBB da vida real e sempre tem boas pontuações. Concordo que as montagens foram perigosas e violam o direito de imagem (não sei bem como foram feitas, mas parece mesmo haver uma violação). E isso talvez seja motivo para tirá-las do ar. Tirando esse ponto, contudo, o que fica é ofensivo? 

E aí que volto ao observador/receptor da imagem e sua reação. Não seria a reação do receptor a revelação do seu próprio preconceito? Se ele faz a leitura de que dois homens que se beijam é um ato ofensivo, então algo há de errado nesse pensar, não é mesmo?! E me parece que campanhas polêmicas - e essa especialmente - jogam justamente com isso, com a lente do receptor e sua reação preconceituosa.

Concordo quando o Mozine diz que uma campanha como essa pode legitimar o discurso reacionário de comediantes (sic) e defensores da (sic) liberdade de expressão - que parecem só defendê-la quando necessária para a veiculação de seus preconceitos. Eu vejo esse perigo...

BUT... eu estou pelo barulho. Precisamos de barulho. E nem estou dizendo que precisamos de barulho pela homofobia/lesbofobia escancarada, violenta, intelectualmente desonesta e (------- coloque o adjetivo que preferir) que andam tomando conta desse país, cujo combate necessita de TODO barulho possível. Mas se dermos um passo ao antes e percebermos que um beijo entre dois homens é considerado, na nossa sociedade, um ato ofensivo, então a luta é maior e precisa de MAIS barulho. Se o tabu é assim tão enorme e o preconceito idem, então só uma campanha escandalosa - no sentido genérico e no sentido específico o "campanha" - pode fazer contraponto.

O que quero dizer, então

Barulho, bebê, barulho.



"De qualquer forma", diz a Diana, "muita gente pensou no assunto (tolerância) hoje. E essa é uma vitória".



É que barulho acorda, né.

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