Os acontecimentos na cracolândia de São Paulo desencadearam todo o tipo de reação possível: dos indiferentes ao temerosos, dos apoiadores aos críticos, muito se disse.
Dois textos sobre o tema foram fundamentais e muito bem escritos: o da BF Nessa Guedes, no Garota Coca Cola e o do Marcelo Semer no Blog Sem juízo.
Esse texto aqui, contudo, quer falar a partir de outro enfoque. O enfoque da espécie de política criminal que essa espécie de intervenção, ocorrência, desastre ou violência revelam.
Uma reação muito comum é dizer que se trata de um reflexo, na PM Paulista, do governo de direita naquele estado. Talvez sim, a policia paulista de paulistana seja realmente violenta. Talvez sim, a política criminal paulista seja excludente e punitiva. Mas, só ela assim o é? Só ali assim ocorre?
Nao parece ser assim. Em nossa cultura patriarcal, o estado pai, punitivo e sancionador, nao é uma figura exclusiva da direita: arrisco dizer que é parte do imaginário coletivo, ou indo mais longe, parte dos desejos coletivos.
Uma política criminal orientada pela proteção aos direitos humanos e pela alteridade pouco se viu. Ou nem se vê.
E governos de esquerda cometem os mesmos erros na condução do tema, quando nao produzem seus próprios erros em sua própria política criminal. É o que se vê no programa nacional para a segurança pública. Repete-se o caminho da esquerda punitiva, que se conduz pela "faxina" contra a corrupção, os crimes financeiros, tributários, as condutas lesivas á administração pública; na busca de punições exemplares (que, talvez, nunca ocorra), com execrações públicas e condenações a reboque das garantias processuais. Junte a isso um programa de combate às drogas (e a droga da vez a ser combatida é o crack), que convença a população, amedrontada pelas agências midiáticas, que a segurança pública é uma real preocupação do governo.
Assim se viu no Espirito Santo, em dois mandatos de um governo de um partido de esquerda. Por debaixo de uma propaganda de combate ao crime organizado e à corrupção que assolava então o estado (assolava? Aqui vários sic são necessários, mas isso é tema para outro texto), o sistema penitenciário capixaba logo se tornou assunto de boteco, denúncia internacional, vergonha própria e alheia, aquela sujeira que não mais cabia debaixo do tapete.
Uma política criminal criminosa e criminógena não é exclusividade de São Paulo. Não é exclusividade da direita.
É preciso reconhecer e assumir essa herança, a paternidade do estado pai violento e castigador.
A cracolandia destruida, devassada, agredida e violentada não é de São Paulo. A cracolandia assim cuidada é brasileira.
0 comentários:
Postar um comentário